domingo, 22 de novembro de 2009

Bem perto de nascer

Em memória de tudo.

Sou eu somando os pontos. Vendo o sono distanciar-se e a idade chegar, sozinho. Adicionando história à estória dos meus romances, ademais. Um pouco de tudo, até de enganos. Um pouco de deuses e virtudes e vertigens. E agora que não falta mais nada, me falta tudo. Falta apelo. Um pouco de fé desalinhada. É quase hora. Sob meus olhos o trabalho do dia realizado e aqueles rostos a cumprimentar-me pelo sucesso obtido. Não os distingo dos demais inquilinos de minha saudade. Um conto imenso esse de rever minhas gerações. É como uma sorte. Como a certeza de uma estirpe que se atrasou em tudo, vou ficando. Os minutos voam. As páginas sangram de dentro. Existe um boato de que logo estarei extinto. Hoje eu confesso que precisava disso: uma surpresa, um presente, muito mais que palavras e imprevistos. Precisava de certezas, lucidez, que a única razão de eu não ter ido é essa demência. Chega de guerra, mas meu peito não reclama. A paz me deve, eu devo à paz. Precisava de algo que não fosse só silêncio. Minha carcaça ainda agüenta o rumo desse desterro. Mais um pouco e já estarei lá. O remédio faz efeito e tudo começa a ter graça novamente. Ensaio sorrisos. Hoje eu queria um martírio qualquer em minha homenagem. Apenas um pedido. Queria que Ele reconhecesse que falhou, que nunca olhou direto em minhas retinas. É tudo calor e umidade. Há saudade por sobre tudo. Rasa a carícia que se resume em festas sozinhas. Hoje me veio forte, como um sopapo, sua despedida. Naquele tempo eu estava muito mais transido, homem de um tempo antigo nesse tempo. O relógio se anuncia. Vou entrar. A idade se consuma antes mesmo de eu ter dormido. Hoje eu queria aquele abraço, aquele edredon que sempre foi teu, qua sumiu como nossos dias felizes. Apenas hoje, umas palmas pelo esforço, o controle das mãos e desse choro insistente. Não sou fracasso é isso que importa. Eu preciso demais daquela oração. Meu corpo está pronto. Que chegue logo. E quando for para cantar e celebrar, toda minha anatomia, toda minha nostalgia e graça estarão ao encargo desses devaneios de ainda. Quando eu nascer, quero que suas mãos macias me aparem, me aprovem, dediquem-se. Vou pedir para que ela espere minha voz soar feliz. J.M.N

Há dezoito anos, ofertaram-me esta música num dia como este. Para ler escutando...

sábado, 21 de novembro de 2009

Notas de rodapé #5

Insisto: nossos passos estão à mesma distância. Causa espanto o que encontro escrito nas árvores do caminho. Achava que por lá andava só. Surpresa, armadilha ou verdade? Que lugar esconde nosso destino? J.M.N

Duarte e as sobras do jantar

Este texto foi originalmente escrito para compor um livro que está no prelo. Por sugestão de meu primeiro "editor", retirei-o de lá e o publiquei no blog Recanto das Letras, UOL. Penso que aqui, ele realmente encontra sua morada definitiva.

Ele chega em casa com a fome de dois dias e senta à mesa esperando o jantar. O filho menor critica a professora como sempre – o dever de casa é muito difícil. Duarte pensou alguma coisa sobre as despesas mensais, o chefe mau caráter e seu trabalho desgraçadamente pesado, mas preferiu não dizer nada. O filho haveria de saber daquelas coisas um dia. A TV estava quebrada havia um mês, os meninos acabaram em segundos e correram para a casa do vizinho. Talvez porque não houvesse muito que comer, talvez porque a mãe já não era a mesma cozinheira dos tempos de fartura ou, quem sabe, queriam apenas ver o DVD pirata com o filme tão esperado. Duarte sentado, sem tocar na comida. A mulher finalmente lhe dirige um olhar e pergunta sobre o dinheiro para o gás da semana. Ele dá de ombros como se aquilo fosse absolutamente desnecessário. Ela se levanta e diz coisas na linguagem do desgaste dos anos, da raiva desesperada que não haveria de saltar da boca, pois não havia o que fazer de qualquer maneira. Uma dor antiga se instala no estomago vazio. Duarte pensa nos anos em que trabalhava numa grande empresa e ganhava o suficiente para finais de semana no litoral e buquês de flores semana sim, semana não. Um de seus olhos molhou. Suas costas deram o sinal da derrota do cotidiano. Na mesma hora de todos os dias. Levantou e disse à esposa que lavaria a louça. Nunca havia se oferecido para a tarefa. A esposa estranhou, mas passou o prato ensaboado que tinha nas mãos e jogou em seu ombro direito, o pano de enxugar. Ele trabalhou em silêncio por muito tempo. Viu de relance a mulher sair de casa – rumo ignorado – com um perfume nunca antes sentido. Guardou cada artefato de mesa em seu devido lugar. Sentou-se novamente em frente ao seu prato de comida. A carne fria, o arroz duro e todo o silêncio da casa para lhe atormentar. Houve um tempo em que fora feliz. Não lembrava em que ano, comprara um automóvel zero quilômetro. Sua música predileta nunca tocava na rádio do bairro. Tivera um terno, sapatos brancos muito finos e um relógio à prova d’água. Tinha sido bonitão, com lábia para todo e qualquer tipo de ocasião. Um cara com boas expectativas. Perdeu o hábito de se olhar no espelho e a curiosidade de se estudar e se reconhecer abordou-lhe naquele instante. Largou o jantar mais uma vez e foi até o banheiro. Olhou bem nos olhos daquele ser imaginário do espelho e riu até chorar da figura bruta que surgiu diante de si. Cabelos grisalhos. Olhos atirados num tempo qualquer, fora das órbitas, ademais. Duarte chorou. Voltou à mesa e comeu seu alimento. Recebeu os filhos sem calor nos braços. Beijou-os de boca seca e com muita culpa pela deselegância de sua figura paterna. Sentou na poltrona gasta e esperou a esposa. Dormiu. De manhã acordou e sentiu que o peso da noite anterior tinha dissipado. Por alguma razão, sentia-se feliz. Os meninos já tinham esquentado o seu café da manhã. Ele os beijou diferente. Com lábios cheios de si e de amor matutino. Duarte estava mais moço. Com os cabelos arrumados apareceu na frente dos meninos e disse que os levaria para a escola. Eles avisaram que era sábado e mais, sua mãe não havia dormido em casa e que, aliás, aquela era a terceira vez na semana. Duarte os olhou por um breve minuto e disse – que se dane, vamos ao parque! E com aquilo, partiu para a alegria e uma manhã sem nuvens, um filho em cada mão. Uma estranha sensação de liberdade. Disse bom dia para os vizinhos que havia muito tempo, não sabiam o som de sua voz. Desceu as alamedas com a pressa de um adolescente. Os meninos riam também. Naquela manhã ele traçou planos, como nunca mais havia traçado e deixou a monotonia dos pensamentos obscuros debaixo da renovada sensação de vida que se instalava. Faria panquecas para o jantar e nunca mais deixaria os filhos correrem de si. Parecia, enfim que tudo correria bem. Parecia. J.M.N

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Sobre tudo o que sei

Para as personagens que me encantam e aterrorizam.
Que são as mesmas, diga-se.

O que sei, sei aos poucos e muito adiante. Faz sentido de eu ter pouca pensa agora. Senão a vida se descumpria feito roupa velha desfeita de puída. Tenho tato para pouca coisa, entrementes. Sinto apenas em três profundidades: estranho, imenso e ela. Sou muito pouco para caber nas raias de eternidade. Quando sair dessa, não penso em voltar que o trabalho é dobrado. Eis que me benzo desde os cinco para ter mais escolha e prudência e, desde os cinco, isso não me adianta. Por esta razão eu tenho dias de defunto e outros e viver multiplicado. Tenho árvores e cardumes, os bens naturais, em minha feita. Sou apontado pelos sãos, na rua. Acho que a noite vai ser daquelas. O que sei de mim é muito menos do que eu queria ou poderia saber. Sei das coisas, entremeado. Recorrente em mim é este desabrigo das estradas, o ermo solto no curral do mundo. Meu berro seco é de saudade. Só noite me sabe inteira. Chutei estrelas na boca do dia e esta ruindade desencantou para sempre a minha soleira. O sol que entra escalda e ilumina, não deveria. O que sei, sei muito menos do que sinto e o que sinto tem apenas a profundidade dela. J.M.N

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Aconteceu

Aconteceu quando menos se esperava. Quando a razão de dormir era um Rivotril ou um gole furioso de vodka. Aconteceu distante das paragens da certeza, da ilusão do tato, da seqüência de músicas inventadas para embalar os compromissos ainda não firmados. Aconteceu diferente do que a história ensina, muito além das páginas oficiais e dos diários de bordo. Aconteceu num istmo sem península, uma impossibilidade geográfica. Aconteceu quando a tarde acabava e se chegava cansado de outros pontos da cidade a devanear se aconteceria o encontro ou se os braços achariam apenas o vazio das conversas de trabalho. Aconteceu na medida em que se desfaziam as propriedades do calor próprio da terra deles, além, muito além da linha imaginária das defesas para uma possível guerra. E veio sem estratégia, ensimesmado, invadindo todas as horas do dia, todas as frações de interesse, todos os sorrisos infames. Aconteceu com tamanha imprudência e desconsolo que toda a realidade derivou fractais. Qual estado de suspensão e abalo. Aconteceu sem sequer ter acontecido o tempo, esse mesmo que traz as linhas que se fazem agora. J.M.N

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Excertos Terapêuticos XVI

"O que houve, medita o pesaroso,
com estes acontecimentos?

E não se diz a verdade
porém se cobre com papel
esta desgraça de metal.
Mal se abrira o roteiro
quando chegou a derrota
como um machado que caiu
na cisterna do silêncio"

Pablo Neruda - Tristeza na morte de um herói, 1964

domingo, 15 de novembro de 2009

Ocultar-se (?)

Às vezes tenho ganas de desaparecer. Caminhar sob a longa luz de meu solstício e reincidir nas carreiras, na neve solúvel dos artificiais sentidos. Apenas nostalgia, ledo engano. Impressiona-me que às vezes o mundo me caiba numa única sentença e quando ela nasce é como se eu me cumprisse, como se meu ser esgarçasse. Como se todos os meus enganos e imprecisos escapassem do meu dentro. Uma porção de gaiolas abertas repentinamente. Outras vezes é como se tudo isso escapasse e o silêncio de minhas páginas atinge clímaxes como em obras barrocas complicadíssimas. Em certos dias há um escárnio de tudo, embutido no trabalho à pena. Noutras uma vontade de nada ser. De nada trocar. É como se olhasse a porta aberta de um céu qualquer. E como no verso de toda a porta celeste, o que se encontra por de trás é o infinito. Uma vastidão em que não caibo. Nenhum compromisso à vista, nenhuma razão – enferma ou sã. Sei que a poucos importam essas linhas. A mim importam menos. Eu as escrevo por necessidade. Como um ar que condensa em linhas. E em negra tintura concedo-me um perdão discreto. Por não saber de tantas coisas e por não ter com quem dividir outras tantas que inventei e que nesse trabalho íntimo de revelar-me no espelho da incompletude, nascem, em chamadas palavras e dizem, em sabido desespero. J.M.N

Notas de rodapé #4

Acontece que eu não surto mais. Foi o que ela me disse e me prometeu amar e devotar-se como em promessas antigas (ou antiquadas?). Ela veio, ela se foi. Cumpre saber que houve felicidade. Mas não se manteve a promessa. E seu silêncio indica o que sempre soube, não há luta, pois não há intenção de eternidade. Nunca mais veio aqui e suas lágrimas talvez tenham secado. Me disse um dia que era para sempre, me disse outra vez que havia sido a coisa mais intensa de sua existência. Continuo esperando fazer-se acontecida sua sentença, enquanto mato meu zumbido fino, minha crença na história acontecida. Estou aqui a escrever estas linhas, cada vez mais cercadas de nós. Prudentemente distante dos olhos dela. J.M.N

sábado, 14 de novembro de 2009

Varandas

Chegamos e logo procuraste uma razão para brigar. Perto do meio-dia, as coisas não pareciam um caso de amor. Nossa fuga para dias de esquecimento e descanso, havia se resumido às tuas dúvidas sobre o que eu fizera um ano antes, na mesma recepção de hotel. Mais uma vez fomos duros e desnecessários. De toda a sorte de palavras grotescas, sobrou-me uma memória que se agiganta toda vez que visito as dobras da memória e penso que nunca mais haverá noites como aquela. A varanda recebeu nossa loucura e bradamos o que estava em plena força naquele instante. Ouvíamos a nós mesmos como complementos aéreos de um céu estrelado e feito de cores outras que não apenas o negro de sempre. Corremos com cavalos alados, derramamos poemas por sobre as mangueiras da praça, olhares envoltos apenas por nossos próprios olhares e nossos braços e pernas e veias e células, conduzindo os movimentos eufóricos de nossa partilha. Estávamos entre lençóis, urrando a felicidade corpórea e táctil que nos abraçava e o vento da noite não foi o suficiente para calar nosso suor que também dizia nossa existência com força e cheiro de anis. Jamais estarás fora do que chamo de memória, jamais piso numa varanda sem rir primeiro do que fomos naquele dia. J.M.N

O longo sono da tarde

Não foi um descanso, nem mesmo refeitura de uma noite às claras. Não foi desejado. Não me havia preparado para ele. Foi um sono de desculpas. Foi um longo obséquio às coisas que não sei mais responder. Foi um sono falso. Como quando obrigamos o corpo a se desligar e entrar noutras esferas para agitar-se menos, saber-se menos. Assim foi meu sono. Com sonhos e surpresas e saudades. Com pedaços de poemas e os teus pés agora imaginários descendo os degraus de minha razão para perguntar quem afinal sou eu. Foi um sono de circunstâncias adicionais, com razões que o coração não freqüenta e mensagens que levarei anos para decifrar. Meu sono de ainda há pouco foi um pequeno romance dos trópicos, com cenários amplos, praias nuas e rios enormes, um brutal calor em tudo. Talvez um sono de lembrança, talvez um sono de despedida. Foi este sono desabrigado que resumiu meu dia e nele esteve contida a pergunta que venho evitando fazer, há alguns meses. Meu sono reformou os lambaris poéticos que reservei a ti, foi a releitura de nossa sorte culminada em corações partidos. Queria com ele o eixo novo de minhas idades, minhas dúvidas mais insanas e as paixões mais descaradas. Queria, ao afundar nas regiões mais espessas dos meus sentidos, me sentir novamente, todo beijado de água. J.M.N

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Estórias para a razão do dia II

Meu terço inflamado não consola os santos que ofendi, não chega para os meus credos e arrependimentos. Em suma, não alcancei a santidade que queriam. Sou mais para baixo. Um pequeno triunfo das doações a que fui submetido. Estou vivo, mas não inteiro. Acho que temos o mesmo gosto escarlate. É por isso que não passa. Jamais passará. É como uma ontologia, uma marca rupestre em minha anatomia e alma. Achei os dinheiros para pedir tua mão aos teus donos e te libertar. Isso não passa nunca. Instalado, ficou adjacente às minhas escolhas e meus passos estão marcados. Espero-te em dobro agora, porque sei que quando vieres, será na medida que eu chegarei. Só, completo e radicalmente contra aquilo que todos dizem. Que assim seja. J.M.N

Reconhecer-se

Aprendeste a expressar o que sentes, com o sentir dos outros, com versos alheios. A questão agora é do que serias capaz para dizer o que te incomoda? Vermelha a flor sozinha do jardim, se expressa. Ruidosa, a criança que sente fome, consegue o alimento. O vento que desarruma os teus cabelos, tem também seu jeito próprio de te envolver. Quando seguirás o teu pensamento? Quando voltarás ao que nos resumiu e buscarás as respostas? Talvez não seja isso o que realmente queiras. Eu escrevo porque preciso e digo o que me vai por dentro. O que sou, sou inclusive nas palavras. J.M.N

[...]

Sim, são imprecisões, palavras em sanscrito... quem sabe? Eu não sei. Atrás de todo o cuidado há sempre o perigo de se esconder em demasia a realidade, de aquilatar apenas o que se quer ou finge. Você não podia ter saído assim. Talvez nem pudesse ter chegado anyway. Olha só, o mar reclama. Da janela entristecida que deixaste, vejo aquele olho azul e enorme chorando constantemente. Debruçado numa terra que o esquece de vez em quando. O negro lá de cima (a noite ou a bruma), também encobre a solidão. Mas não chega para me dar abrigo. Deixa de fora qualquer coisa, que bem pode te dizer respeito. Encontraste o que procuravas? As ruas me dizem os caminhos trocados. E quando eu saio sozinho, não sei mais voltar. Tenho pedaços esquecidos em todas as madrugadas que freqüentei desde aquele dia. J.M.N

Átrio

De novo aberto, o peito vai
acobertando as efemérides do amor
descuidado, debulhado feito livro, usado
mais que tudo, em seu louvor

A madrugada se fecha e o sangue
arvora-se a irrigar meus quintais
um pouco sujo o poema nasce, equidistante
e a luz contrai como um surto especular

Ouço meu verbo malicioso e incandescente
aceso nas entrelinhas do teu busto
meu olho escapa como um louco, um teu sorriso
a instalar-se vivo no cobre da tarde morta

Ai que me invada o peso tanto desta incerteza
e que aconteça de eu morrer, tempos atrás
benquisto, vulgo, arqui-inimigo, despossuído
em teus braços, vagamente, a me entregar.

J.M.N. Belém, 08 de junho de 2008.

Vetar-se

Esta seção, dedica-se ao clássico e flerta com o arcadismo, no sentido de “a arte pela arte”. Não é como querias? Perguntas que tu mesma pudesse responder? Diálogos monótonos sobre o que já havias passado e a compulsão por ser a vítima? Afasia e agnose desconcertantes com os sons e as imagens que fazias, surgiram, mas de tão ríspida não viste. Nem bem dobraste a rua, te vi correndo para voltar ao apartamento e resgatar tudo teu. Foi como se soubesses – e assim ficou mais fácil desinvestir e não cuidar at all, desde sempre. Fica a pergunta: e se? J.M.N

4º Festival Se Rasgum

programacao

Em primeiro lugar gostaríamos de parabenizar toda a turma da Dançum Se Rasgum Produciones pela 4ª edição do Festival. Temos certeza de que a batalha foi grande para chegar até aqui com o reconhecimento regional e nacional que o festival alcançou.

O Festival traz a reboque eventos voltados para a produção cultural independente, tais como palestras, workshops e seminários, os quais ajudam a enriquecer a iniciativa e colocam o festival no patamar de respeito que merece, tornando-o muito mais que um grande encontro de bandas e celebração da música independente.

Deixamos a dica para um excelente fim-de-semana em Belém, como desejo de que iniciativas como esta multipliquem-se e sustentem-se. Seria bom ter mais desses finais de semana na mangueirosa. Estaremos lá "cobrindo" o evento.

Um abraço a toda a turma da Se Rasgum e sucesso! J.M.N

Serviço:
4º Festival Se Rasgum
Período: 13, 14 e 15 de Novembro
Local: African Bar
Pontos de Venda de Ingressos:
Ná Figueredo (Gentil Bittencourt 449 e Estação das Docas)
Colcci (Braz de Aguiar, Pátio Belém e Shopping Castanheira)
DiCasa (Entroncamento)

domingo, 8 de novembro de 2009

Deixar ser o que se é

Está tudo dentro. Um mutirão se encarrega de acalmar as células e os processos metabólicos e de multiplicação extrema cessam por um instante. É a melhor das ilusões, esta de estar contigo ao alcance das mãos. Fazes parte de mim, deveras. Não o contrário. Fico agradecido pela paz. Fico irrequieto com minha respiração melhorando, pois depois de doenças e socorro alheio, nada resta para te pedir e não sobrou desculpa para te ligar e pedir tua presença, como fiz imaginando qual seria tua reação. Por isso desliguei tão abruptamente. Me deixa ser apenas, pedi. E quando aconteceu de ela entender pude chegar aos requintes de verbo que jamais pensei ter à disposição. Estava tudo ali, enfurnado em minhas mãos, sob as vértebras do tempo em que era um menino doado à atenção esporádica de tantos. Foi neste ponto que nos encontramos. É esta nossa interseção. Por este veio exploramos um ao outro como dois inconseqüentes. Somos das coisas menos práticas e ardidas e cantamos também com os olhares distônicos, mentidos, pois nossa arquitetura é quase a mesma dos antepassados esquecidos destas cidades por onde já fomos. Era muito pouco pedir para que brilhasses. Teu corpo nu era a melhor metáfora para minha loucura e nós unidos por pedidos impossíveis e indevidos, éramos a melhor tradução para o reencontro. É bom saber que te embrenhas em minhas letras, que culminas meus porquês. Esta paz que sobra e permite integrar composições com histórias de corpo e canções inventadas, como quando nos aprontamos para escrever um romance todos os dias. J.M.N

Urgência e emergência

Dedicado à enfermeira Rosana que salvou meu dia
em maio de 1986.

Cheguei com toda a sorte de sintomas: constipação, voz alterada por inflamação de garganta, dor no fundo dos olhos e no seio da face e nostalgia. O atendimento foi rápido. Quanto à eficiência – discutível. Lembrei de uns anos antes quando fiquei de cama num hospital estrangeiro, urrando de dor e solidão enquanto tentavam dopar um paciente da ala psiquiátrica que teimava estar virando do avesso, sentia-se virar do avesso, via-se com as carnes expostas e seu interior entregue ao mundo – ele estava do avesso. Quanto a mim, fiquei quieto para não ter de passar pelo constrangimento de preencher um inquérito sobre a qualidade do atendimento do hospital. Hoje foi diferente. Cheguei sozinho à sala de espera. Tomei precauções para não ser visto como um doente e quando li o cartaz sobre os cuidados com a tal gripe específica que assola o país, engoli minha tosse seca e bebi dois litros de água. Entrei no consultório, disse o que sentia, fui auscultado, mas tive de pedir para verificarem minha pressão. Não pude deixar de pensar em meus ataques de ansiedade que se vão agravando nos últimos dias. Não pude deixar de pensar numa sala de hospital toda em azul, anos atrás, quando tive a revelação de que sofria de asma e padeceria com corticóides na corrente sanguínea pelo resto da vida. Uma profecia que não se cumpriu. Deu vontade de fazer telefonemas anônimos, acusar pesssoas de abandono, falsas promessas - disparates. Lembrei que mesmo acompanhado, naquele dia do ataque de asma, sentia-me só. Tinha uns dez anos. Minhas mãos estavam ao vento e à enfermeira, quando me perguntou o que podia fazer para melhorar minha cara, respondi: me dá um beijo. Tive a sorte de encontrar pessoas dispostas a atender meus pedidos mais esdrúxulos ao longo da vida e outras que me ensinaram a fazer por mim, a buscar. Naquele dia longínquo não foi diferente. Hoje a urgência era, sem dúvida menor. Escokhi procurar o serviço de urgência sozinho e fui dirigindo e cantando músicas de saudade, um teatro apenas. Talvez nem fosse uma questão tão emergencial assim. Recebi remédio na veia, fiz uma sessão do famigerado aerossol e escutei as dores de alguém que sofria de pedras nos rins e gritava, tira isso de mim, faz passar. E ninguém fazia. Percebi que não estava tão mal assim, que minha vida tem sido boa demais até. Iniciei uma raiva remota por não estar acompanhado, mas a dilui com a risada da criança que tomava soro e dizia estar sentindo o corpo ficando mais forte. Lembrei de um episódio de febre e do colo preocupado que me embalou e protegeu. Sim, eu já me senti protegido. Não pedi beijos ou cuidados especiais. Não fiquei mais do que cinqüenta minutos no hospital, mas tive a impressão de que não teria passado a vida sem aquele beijo pela crise de asma, séculos atrás. Enquanto voltava para casa, pensei em ficar cansado e dizer a mim mesmo perto da hora do sono: dorme bem, o pior já passou. J.M.N

sábado, 7 de novembro de 2009

O preparo do sono

"É verdade, no momento em que decidi comer o cacto,
esperava não sei o que, algo que me tornaria maior,
mais forte, que me daria um poder próximo a Deus.
Só que eu não deveria ter comido a parte central,
não deveria ter untado a totalidade do meu corpo
com sua substância.
"

Piera Aulagnier - (Philippe, um paciente),
O aprendiz de historiador e o mestre feiticeiro, 1984.

Todos dormem. Tenho medo de jamais voltar a fechar os olhos. Mais uma vez ingresso no ritmo secreto da cidade e suspendo o perdão dos sentidos por terem deixado tamanhas coisas boiando em mim. Sinto-me acumulado de outras vidas, de outras respirações. Enquanto forço o dobre dos sinos para despertar os que mais queria que estivessem acordados, nesta minha insônia já regular, percebo o quanto sou desproporcional em meus sentimentos. É algo que me ultrapassa, me configura antes mesmo de saber que eu existia. Às vezes tomo drágeas e poções para que venha o sono. Algumas vezes tenho sucesso. Em outras me deito, mesmo desperto, bem no meio do colchão intentando recompor minha calma. O que me espera, uns calafrios. Mesmo aniquilado em pó e chuva e inconstância, posso sentir o ressonar do sono dela. Lá no fundo de minhas idas e vindas, um hálito quente e algo temperado com costume, em cujo ritmo deixo acontecer minhas verdades de rebelião e desejo. Por sua boca passam meus anos de claustro. Em sua respiração, resvala um conhecimento antiqüíssimo. E quando o relógio me desperta, mais uma vez, vejo que foi ela quem me preparou para o sono, e esteve comigo enquanto eu decidia se existia ou usava o cadafalso. J.M.N

Pensei nisso para escutar enquanto se lê. Talvez eu tenha exagerado. Nem tudo é melancolia...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Estórias para a razão do dia I

Suspendam-se os poemas, a fantasia está morta. Aforismo redundante e sem sentido. O que está para nós, começa depois da largada. A estrada é de chão batido e faz muita poeira passar por seu corpo curvilíneo. Pelo retrovisor a marcação da distância. Não consigo distinguir se é longe ou perto. E uma vez mais, desejei estar sozinho e sem rumo. Encontrei o ritmo de tua alma descalça, descansando desimportante em uma parada do caminho. Chega e traça os rumos comigo. Mas vem logo que logo adiante está o abismo que nos derrotou na primeira passagem. J.M.N